Existem animes de luta em que dominar uma técnica significa passar anos aperfeiçoando postura, velocidade, respiração, precisão e controle do próprio corpo. E existe Baki, uma obra em que todo esse treinamento também pode terminar com alguém aprendendo a transformar o braço em um chicote, lutar com as mãos nos bolsos, simular cortes com uma espada que nem existe ou criar uma disciplina de combate baseada em morder o adversário.
O curioso é que quase nada disso recebe tratamento de piada dentro da história. Keisuke Itagaki apresenta essas ideias com uma convicção impressionante, misturando artes marciais, anatomia, preparação física e explicações científicas até chegar a conclusões que fariam qualquer professor de biomecânica fechar o livro e ir embora. É justamente essa seriedade diante do absurdo que dá personalidade à franquia.
Entre tantos estilos estranhos, alguns conseguiram ultrapassar até o padrão normalmente elevado de maluquice de Baki. Há técnicas que ainda lembram uma arte marcial real levada ao extremo, outras já flertam abertamente com o sobrenatural e existe pelo menos uma envolvendo Gaia que talvez nunca devesse ter saído da cabeça de Itagaki.
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Hand Pocket — Ron Shobun transformou os bolsos em parte de uma arte marcial

Entrar em uma luta com as mãos nos bolsos normalmente parece uma maneira bastante eficiente de apanhar. Ron Shobun, porém, construiu boa parte de seu estilo justamente em torno dessa posição. Seu Iai Kenpo utiliza o chamado Hand Pocket, técnica na qual ele mantém as mãos escondidas e transforma o próprio movimento de retirá-las dos bolsos em parte do ataque.
A ideia lembra o princípio do iaijutsu, no qual o espadachim procura sacar a lâmina e atacar praticamente no mesmo movimento. Ron simplesmente decidiu aplicar um raciocínio parecido sem a pequena formalidade de carregar uma espada. Os bolsos fazem o papel da bainha, enquanto suas mãos ficam escondidas até o momento em que o golpe é disparado.
Durante seu confronto com Biscuit Oliva, essa abordagem permite que Ron ataque partindo de uma postura que parece relaxada. Como o movimento inicial fica parcialmente oculto, o adversário recebe menos pistas sobre quando o ataque vai começar. Há uma lógica marcial por trás da ideia; só é difícil ignorar que essa lógica chegou a uma conclusão maravilhosa: alguém viu um espadachim sacando uma katana e aparentemente pensou que uma calça poderia resolver o mesmo problema.
Isso também combina perfeitamente com a maneira como Baki trabalha suas técnicas. O conceito é estranho, mas não é apresentado como uma simples gag. Ron treinou aquele movimento até transformá-lo em parte legítima de seu estilo, com distância, velocidade e timing adaptados à posição das mãos. Ainda assim, talvez seja prudente não utilizar Baki como referência caso você esteja procurando um curso de defesa pessoal.
Miyamoto Musashi consegue cortar alguém sem precisar de uma espada

Ron ainda precisa de bolsos. Miyamoto Musashi decidiu economizar até nisso.
A versão do lendário espadachim apresentada em Baki-Dou possui uma capacidade conhecida como Imitation Cut. Musashi consegue transmitir sua intenção de cortar de maneira tão intensa que o adversário experimenta a sensação do ataque mesmo quando a lâmina física não está sendo utilizada. A vítima percebe o corte, sente a ameaça e pode reagir como se realmente tivesse sido atingida.
Em outra série seria bastante fácil classificar isso como poder psíquico, energia espiritual ou alguma forma de magia. Baki prefere tratar o fenômeno como uma extensão absurda da habilidade de Musashi como guerreiro. Ele viveu tanto em função da espada e desenvolveu uma presença tão ameaçadora que sua intenção de cortar praticamente se transforma em arma.
Esse conceito encaixa muito bem no personagem. Musashi não está apenas utilizando uma técnica que aprendeu; toda a sua identidade está ligada ao ato de cortar. O resultado é uma habilidade que ultrapassa claramente o limite das artes marciais convencionais, mas ainda é tratada dentro da narrativa como consequência de sua experiência.
É um dos melhores exemplos de como Baki consegue fazer algo completamente surreal parecer estranhamente aceitável depois de alguns minutos de explicação. Musashi encara alguém, projeta um corte inexistente e o corpo do adversário praticamente responde: “Certo, aparentemente fomos fatiados”. A luta então segue normalmente, porque ninguém naquele universo tem tempo para questionar esse tipo de coisa.
Jack Hanma transformou a mordida em uma disciplina de combate

Jack Hanma nunca teve uma relação muito saudável com a ideia de limites. Seu treinamento envolve métodos extremos, modificações corporais, drogas, cirurgias e uma obsessão permanente em encontrar qualquer recurso capaz de torná-lo mais forte. Em determinado momento, essa busca chega a uma arma disponível para praticamente qualquer ser humano desde o nascimento: os dentes.
A evolução de Jack resulta no desenvolvimento do Goudou, estilo centrado no uso sistemático da mordida durante o combate. Parece ridículo quando resumido dessa maneira — e continua parecendo ridículo depois de explicado —, mas a abordagem vai muito além de simplesmente morder alguém no meio de uma briga.
Jack passa a tratar dentes e mandíbula como outros lutadores tratam punhos, pernas ou técnicas de grappling. Ele procura distância, prepara entradas, cria situações de controle e espera oportunidades para utilizar a mordida de maneira deliberada. Em vez de ser um recurso desesperado, ela se transforma em uma ferramenta integrada ao restante de seu combate.
Isso é justamente o que torna o Goudou tão desconfortável. Qualquer pessoa poderia tentar morder alguém em uma situação caótica; Jack resolveu estudar a ideia, aperfeiçoá-la e transformá-la praticamente em uma filosofia marcial. É como se tivesse observado séculos de boxe, karatê, judô e jiu-jítsu e concluído que a humanidade estava ignorando possibilidades importantes demais dentro da própria boca.
Ao mesmo tempo, poucas técnicas representam Jack tão bem. Elegância e tradição nunca foram prioridade para ele. Seu objetivo é vencer, e qualquer parte do corpo capaz de ajudá-lo será utilizada. Se o adversário discordar dessa filosofia, terá a oportunidade de discutir o assunto enquanto tenta manter seus membros longe dos dentes de Jack.
Benda — o golpe que lembra que músculos não protegem a pele

A Whip Strike, também conhecida como Benda em referências da série, parte de um princípio relativamente simples: relaxar o corpo e movimentar o braço como se ele fosse um chicote. Em Baki, porém, um conceito aparentemente normal nunca permanece normal por muito tempo.
O ataque atinge uma grande área da pele e provoca uma dor extremamente intensa. Em vez de concentrar toda a força em um ponto para produzir dano profundo, como aconteceria em muitos socos, a técnica explora justamente a sensibilidade da superfície do corpo. Isso cria um problema curioso para personagens acostumados a suportar níveis absurdos de violência.
Alguém pode desenvolver músculos enormes, fortalecer o corpo, aprender a absorver impactos e continuar lutando depois de golpes que derrubariam uma pessoa comum imediatamente. A pele, porém, continua sendo pele. Baki pega essa vulnerabilidade bastante básica e a transforma em uma técnica capaz de causar reações desesperadas até em lutadores extremamente resistentes.
É também um bom exemplo de variedade dentro das lutas da franquia. Nem tudo precisa ser decidido por quem possui o soco mais forte. Algumas técnicas exploram velocidade, percepção, equilíbrio, dor ou intimidação, o que ajuda a evitar que todos os confrontos terminem simplesmente com dois gigantes tentando descobrir quem consegue atravessar mais concreto com o outro.
E falando em abordagens pouco convencionais, infelizmente chegou a hora de Gaia.
Tunnel — a técnica de Gaia que ninguém precisava conhecer
Gaia é especialista em combate militar e sobrevivência, alguém acostumado a transformar terreno, objetos e características do próprio corpo em ferramentas durante uma batalha. Seu tamanho relativamente pequeno em comparação com vários monstros físicos da série também o obriga a encontrar soluções menos convencionais para enfrentar adversários maiores.
Nenhuma explicação, porém, prepara alguém adequadamente para o Tunnel, também conhecido durante muito tempo entre fãs por traduções como Dark Tunnel.
A técnica utiliza justamente o tamanho de Gaia para permitir que ele entre no corpo do adversário e atravesse seu interior. Não se trata de uma ilusão, metáfora ou efeito psicológico. O conceito é exatamente aquele sugerido pelo nome: Gaia transforma o inimigo em um túnel.
É provavelmente suficiente deixar a descrição nesse nível.
Dentro da lógica do personagem, existe uma justificativa relacionada à adaptação e ao uso extremo das condições disponíveis no campo de batalha. Gaia não possui a massa física de personagens como Oliva ou Jack e, portanto, procura maneiras completamente diferentes de neutralizar seus inimigos. Tecnicamente, isso faz sentido dentro de sua filosofia de combate.
O problema começa quando alguém decide perguntar como, exatamente, ele pretende utilizar essa vantagem.
Tunnel acabou se tornando uma das técnicas que melhor representam a fama de Baki para quem acompanha a franquia de fora. Você pode explicar tranquilamente que Gaia domina combate militar, utiliza o ambiente como arma, controla sua presença e possui técnicas de sobrevivência extremamente avançadas. Tudo segue relativamente normal até chegar naquela última habilidade sobre a qual talvez seja melhor não fornecer detalhes durante o almoço.
Baki consegue explicar o inexplicável com uma confiança impressionante

Talvez a parte mais divertida dessas técnicas seja a maneira como a obra se esforça para justificar quase todas elas. Baki raramente se limita a dizer que determinado personagem consegue fazer alguma coisa simplesmente porque é forte. Normalmente existe uma explicação, mesmo quando essa explicação parece ter sido elaborada por um cientista que ficou tempo demais sem dormir.
Pode surgir uma análise sobre músculos, articulações ou biomecânica. Em outros momentos aparece uma comparação com animais, uma história ocorrida décadas atrás ou algum especialista convenientemente disponível para explicar exatamente por que aquela situação completamente impossível possui uma base supostamente racional.
Quando a explicação termina, muitas vezes aquilo continua sem fazer sentido. A diferença é que agora não faz sentido com enorme autoridade científica.
Esse mecanismo funciona porque a série realmente utiliza elementos de anatomia, artes marciais e treinamento como ponto de partida. Itagaki pega um conceito verdadeiro, estica suas possibilidades, exagera mais um pouco e continua avançando até chegar a um ponto em que Miyamoto Musashi consegue fazer alguém sentir uma espada que não existe.
Há uma lógica interna, mesmo quando a realidade já ficou várias estações para trás. Depois que o leitor aceita essa regra, fica muito mais fácil entrar na brincadeira.
E essas estão longe de ser as únicas técnicas absurdas da franquia
Uma lista de habilidades estranhas de Baki poderia facilmente continuar por muito mais tempo. A série possui técnicas ligadas à imaginação, movimentos inspirados em animais, aplicações extremas de força nos dedos, manipulação de equilíbrio e demonstrações de velocidade que não sobreviveriam por muito tempo em uma aula convencional de física.
Essa variedade parece nascer de uma pergunta recorrente dentro da obra: qual característica aparentemente comum do corpo humano ainda pode ser transformada em arma?
Jack escolheu os dentes. Ron Shobun encontrou utilidade marcial para os bolsos. Musashi chegou à conclusão de que, em certas situações, nem precisava mais da espada. Gaia também encontrou sua própria resposta, embora exista um forte argumento a favor de nunca mais discutir o assunto.
É por isso que uma segunda parte sobre técnicas absurdas da franquia não teria dificuldade alguma para encontrar material. O verdadeiro trabalho seria decidir onde colocar o limite, porque Baki demonstra repetidamente que qualquer limite estabelecido hoje provavelmente será ultrapassado alguns capítulos depois.
Baki funciona justamente porque não tem vergonha de ser absurdo
Existem histórias de artes marciais preocupadas em permanecer relativamente próximas da realidade. Baki utiliza a realidade mais como uma sugestão inicial.
O exagero virou parte essencial da identidade da obra. Quando um novo personagem apresenta sua técnica, nunca sabemos se veremos uma aplicação extrema de alguma arte marcial existente, uma interpretação improvável da anatomia humana ou algo tão absurdo que será necessário ouvir cinco minutos de explicação antes de perceber que a série está falando sério.
Essa imprevisibilidade ajuda a tornar as lutas memoráveis. Mesmo quando sabemos que determinado conceito não funcionaria fora daquele universo, existe curiosidade em descobrir até onde Itagaki pretende levar a ideia e qual argumento será utilizado para justificá-la.
Depois de algum tempo acompanhando a franquia, a pergunta também muda. Você deixa de se preocupar tanto com “isso seria possível?” e passa a pensar em algo muito mais importante dentro da lógica de Baki:
será que essa técnica funcionaria contra Yujiro Hanma?
Quando essa pergunta começa a parecer perfeitamente razoável, a série já conseguiu o que queria.



