Quatro anos depois da estreia de Cyberpunk: Edgerunners, a Netflix disponibilizou, em 20 de outubro de 2026, os dez episódios de sua nova produção ambientada em Night City, conhecida no Brasil como Cyberpunk: Mercenários 2, a série reúne novamente a CD Projekt RED e o estúdio japonês Trigger, mas abandona o elenco central da primeira história. No lugar de uma continuação direta, o público encontra personagens com conflitos próprios, envolvidos em disputas corporativas, vinganças e relações familiares dentro da mesma metrópole de Cyberpunk 2077.
A temporada chegou completa ao catálogo, sem lançamentos semanais. A estreia encerra uma espera iniciada oficialmente em julho de 2025, quando a parceria foi anunciada durante a Anime Expo ,desde então, a campanha de divulgação apresentou trailers, pôsteres e detalhes do elenco. A proposta é ampliar o universo da franquia sem depender de uma nova aventura de David e Lucy.
Por que a nova história não acompanha David Martinez?
O anime de 2022 seguia David, um jovem que entrava no mundo dos mercenários depois de perder a estabilidade familiar. Sua aproximação com Lucy, Maine e Rebecca misturava perseguições, implantes cibernéticos e uma história marcada pelo custo físico e emocional de sobreviver naquela sociedade, a produção ganhou o prêmio de Anime do Ano no Crunchyroll Anime Awards de 2023, consolidando sua presença entre as adaptações de videogames mais comentadas daquele período.
Em vez de reabrir um arco que teve encerramento próprio, a equipe decidiu explorar outras pessoas afetadas pela mesma cidade. Bartosz Sztybor, responsável pela história da nova produção, explicou em entrevistas que já considerava narrativas adicionais enquanto escrevia a obra original,o objetivo nunca foi transformar David e Lucy em protagonistas permanentes.
A segunda parte funciona, portanto, como uma história independente, quem conhece o anime anterior perceberá referências ao universo compartilhado, mas não precisa esperar que suas figuras centrais conduzam os acontecimentos. Também não se deve confundir a ausência desses personagens com uma desconexão completa: segundo o roteirista, a posição da trama na cronologia de Cyberpunk importa, embora nem todos os detalhes tenham sido explicados antecipadamente.
Weak e D colocam passado e vingança no centro da trama
Entre os novos personagens está Weak, mercenário veterano anteriormente conhecido como King, e depois de alcançar prestígio, ele vive afastado da antiga glória e precisa encontrar um propósito sem os implantes que antes definiam sua reputação. A premissa contrasta com a jornada de David: em vez de acompanhar alguém que conquista poder, o público conhece um homem obrigado a lidar com sua perda.
Outro destaque é D, um trilha-rede ligado à Nação Cobra. Sua busca pelo responsável pela destruição do próprio clã o aproxima de segredos corporativos perigosos. O personagem abre espaço para o lado nômade desse universo, frequentemente associado a grupos que vivem fora das grandes cidades, mas continuam sujeitos às disputas por tecnologia, influência e recursos.
Esses dois caminhos permitem abordar consequências distintas da violência. Weak carrega o peso de uma identidade construída sobre desempenho e aprimoramentos físicos; D procura respostas para uma tragédia que transformou sua relação com o mundo. O material oficial apresenta a vingança e a possibilidade de redenção como eixos da temporada, sem prometer saídas simples para nenhum dos dois.
Roman e Talia mostram lados diferentes da obsessão tecnológica
Roman Carax segue uma direção pouco comum para Night City. Fascinado pelo cinema tradicional, o jovem usa uma câmera para registrar histórias reais num ambiente em que a neurodança permite experimentar gravações sensoriais como se fossem vivências próprias. A escolha não é mero detalhe estético. Ela coloca em disputa duas maneiras de observar outras pessoas: testemunhar acontecimentos por meio de uma imagem ou consumir experiências reproduzidas tecnologicamente.
O showrunner contou à imprensa que Roman surgiu durante as conversas com Kai Ikarashi, diretor da nova fase, e acabou se tornando uma expressão do interesse de ambos pela linguagem cinematográfica. Sua presença ajuda a explicar por que a obra utiliza enquadramentos, texturas e referências visuais que fogem do padrão anterior.
Talia representa o extremo oposto dessa relação com a tecnologia. Criada num ambiente corporativo e depois marcada pela influência da violenta gangue Maelstrom, ela incorpora a cultura de modificações corporais levadas ao limite. Sua mãe, Avida, é uma antiga cantora de jazz ligada ao mundo empresarial e ao passado de Weak; o pai, Kiril, ocupa uma posição de poder na Kang Tao. Esse conjunto de relações coloca a família e a origem social da personagem perto dos conflitos centrais.
Studio Trigger aposta em outro estilo de animação
A direção está nas mãos de Kai Ikarashi, que trabalhou no sexto episódio da primeira temporada, centrado na crise de Maine. Ele assume o posto antes ocupado por Hiroyuki Imaishi. Kanno Ichigo lidera o design dos personagens, enquanto Masahiko Otsuka retorna à criação e adaptação da história com Sztybor.
Nas entrevistas concedidas durante a divulgação, a equipe citou filmes dos anos 1990, entre eles Pulp Fiction e Léon: O Profissional, além da estética de animes das décadas de 1980 e 1990. A mudança aparece no traço mais marcado, nas silhuetas, nos efeitos de luz e na alternância de linguagens visuais. A presença de câmeras e imagens com aparência analógica está relacionada principalmente à maneira como Roman enxerga os acontecimentos.
Ikarashi também chamou atenção para cenas banhadas pela luz do dia. A violência dessa cidade costuma ser associada a letreiros de néon e ruas noturnas, mas a nova abordagem procura mostrar que brutalidade e desigualdade não desaparecem quando o sol nasce. Não se trata apenas de uma paleta diferente: a iluminação interfere na percepção dos personagens e do espectador.
Cyberpunk 2077 também recebe novidades ligadas ao anime
A estreia foi acompanhada pela atualização gratuita 2.5 de Cyberpunk 2077, lançada em 22 de outubro para PC, PlayStation 5, Xbox Series X|S e versões de Mac distribuídas por Steam, GOG e Epic Games Store. As versões para Nintendo Switch 2 e Mac App Store receberão o conteúdo posteriormente.
Entre as adições está a missão secundária Repressão, ambientada antes dos acontecimentos de Mercenários 2. Para desbloqueá-la, o jogador deve concluir O roubo, realizar dois serviços para Wakako e aguardar uma mensagem. A aventura permite encontrar Weak e sua equipe em uma operação na prisão de Night City. As recompensas incluem equipamentos inspirados no antigo King. Também chega a estação de rádio HKGN 102.0 FM, com músicas relacionadas à série.
A atualização não se limita a referências ao anime. O jogo ganha personalização visual para implantes das mãos, opção de combate com duas pistolas ou revólveres compatíveis e novos conteúdos para exploração. A CD Projekt RED também anunciou suporte a modificações entre plataformas por meio do mod.io, além de melhorias de interface e recursos técnicos específicos de cada sistema.
Uma estreia cercada de expectativas e comparações
A recepção crítica inicial indica que repetir o impacto de 2022 não será tarefa simples. Análises publicadas antes da chegada ao catálogo elogiaram a ousadia visual e a expansão do cenário, mas divergiram sobre o resultado de uma narrativa dividida entre vários protagonistas. Parte das avaliações considerou que o novo formato reduz o tempo dedicado ao desenvolvimento individual; outras destacaram a ambição dos caminhos que acabam se encontrando.
Essa discussão acompanha a principal escolha criativa da equipe. A primeira obra concentrava quase tudo na transformação de David e nas relações dentro de seu grupo. Agora, a montagem precisa conectar pessoas com idades, experiências e objetivos diferentes. A variedade abre espaço para conflitos que não caberiam numa única trajetória, mas exige cuidado para que cada vínculo tenha peso.
Até 22 de outubro, não havia anúncio oficial de uma terceira produção. O que está confirmado é que Mercenários 2 já pode ser assistido integralmente na Netflix. Para quem pretende começar, vale saber que a temporada preserva a violência e os temas adultos associados à franquia, mas busca uma identidade própria. Night City permanece reconhecível; as pessoas que atravessam suas ruas, e a maneira como suas histórias são contadas, mudaram.



