Muzan Kibutsuji transformou inúmeros seres humanos ao longo de séculos, fortaleceu alguns deles com seu próprio sangue e reuniu os mais poderosos entre as Doze Luas Demoníacas. Ainda assim, nenhum demônio que serviu diretamente ao vilão conseguiu ocupar uma posição comparável à de Kokushibo. Doma e Akaza chegaram a níveis absurdos de força, mas a Lua Superior Um permaneceu acima deles durante grande parte de sua existência.
A diferença não pode ser explicada apenas pela quantidade de sangue recebida de Muzan. Kokushibo já possuía uma base extraordinária antes mesmo de abandonar a humanidade. Sua força nasceu da combinação entre talento, treinamento, experiência como Caçador de Demônios e séculos de evolução depois da transformação.
Muzan conseguiu ampliar tudo isso. Criar essa base do zero era outra história.
Michikatsu já estava entre os maiores espadachins de sua época

Antes de assumir o nome Kokushibo, ele era Michikatsu Tsugikuni, irmão gêmeo de Yoriichi Tsugikuni. Viver ao lado do homem que se tornaria o maior espadachim conhecido da história fez com que Michikatsu parecesse inferior dentro da própria família, mas essa comparação esconde o nível que ele próprio havia alcançado. Michikatsu estava muito acima de um guerreiro comum e fazia parte da geração que desenvolveu as primeiras Respirações usadas pelos Caçadores de Demônios.
Incapaz de reproduzir a Respiração do Sol de Yoriichi, ele desenvolveu a Respiração da Lua, adaptando o estilo às próprias capacidades. Michikatsu também despertou a Marca do Caçador e dedicou grande parte da vida à espada. Quando conheceu Muzan, portanto, já possuía anos de treinamento, percepção de combate e domínio técnico que não poderiam ser transmitidos através de sangue demoníaco.
Sua decisão de se tornar demônio também nasceu desse passado. Michikatsu temia morrer jovem por causa da Marca e carregava uma obsessão crescente por alcançar Yoriichi. A transformação oferecida por Muzan entregava justamente aquilo que ele desejava: tempo. Como demônio, ele poderia continuar desenvolvendo sua técnica sem envelhecer como um ser humano.
Essa escolha criou uma situação rara. Muzan não transformou alguém esperando descobrir se aquela pessoa teria potencial. Ele recebeu um espadachim excepcional que já havia passado por parte do treinamento mais avançado disponível em sua época.
O sangue de Muzan aumentava força, mas não substituía técnica

O próprio funcionamento dos demônios deixa claro que receber o sangue de Muzan não garante resultados iguais para todos. Alguns corpos sequer suportavam a transformação ou grandes quantidades de sangue, enquanto outros se tornavam poderosos sem chegar perto das Luas Superiores. A força demoníaca também podia crescer com a quantidade de humanos consumidos e com o desenvolvimento das Artes Demoníacas de Sangue, mas cada indivíduo apresentava capacidades diferentes.
Kokushibo partiu de uma condição muito mais favorável. Depois de se tornar demônio, não abandonou aquilo que havia aprendido como espadachim. Sua Respiração da Lua continuou sendo aperfeiçoada e acabou combinada às habilidades de seu novo corpo, formando um estilo que misturava técnica de espada, regeneração, percepção extremamente avançada e uma Arte Demoníaca de Sangue capaz de ampliar seus ataques.
Essa combinação fazia dele um adversário muito diferente de outros demônios. Akaza, por exemplo, também preservou uma habilidade de combate excepcional vinda da vida humana e transformou sua experiência marcial em parte fundamental de seu estilo. Doma desenvolveu uma Arte Demoníaca de Sangue extremamente versátil e perigosa. Kokushibo, porém, reunia séculos de experiência demoníaca com uma formação ligada diretamente às origens das técnicas de Respiração.
Muzan podia fornecer seu sangue e transformar alguém em demônio, mas não podia entregar décadas de treinamento com uma espada, criar uma Respiração individual ou reproduzir a experiência acumulada por Michikatsu antes da transformação.
Kokushibo teve séculos para aperfeiçoar aquilo que já sabia

A transformação também resolveu uma das limitações que mais incomodavam Michikatsu: o tempo. Como humano marcado, sua expectativa de vida era curta. Como demônio, ele atravessou séculos sem sofrer o envelhecimento que encerraria naturalmente sua trajetória como espadachim.
Durante esse período, Kokushibo continuou lutando e refinando suas técnicas. A Respiração da Lua que aparece na história já não corresponde simplesmente ao estilo usado por Michikatsu quando era humano. Ela foi integrada às características de seu corpo demoníaco, permitindo ataques que um espadachim humano não teria condições de reproduzir da mesma maneira.
Sua espada também deixou de ser uma arma convencional e passou a fazer parte de sua natureza demoníaca. Junto à capacidade de regeneração e à percepção que possuía durante o combate, isso tornava seu estilo extremamente difícil de enfrentar mesmo para os Hashira mais experientes.
Kokushibo, portanto, não alcançou a posição de Lua Superior Um apenas no momento em que recebeu o sangue de Muzan. A transformação foi o início de um processo que durou centenas de anos. O talento anterior continuou sendo desenvolvido dentro de um corpo que praticamente eliminava os limites humanos de tempo, resistência e recuperação.
Muzan não tinha como repetir todos os elementos que formaram Kokushibo

A obra não afirma que Muzan passou séculos procurando deliberadamente por um substituto para Kokushibo, portanto não há base para dizer que ele tentou fabricar uma segunda versão da Lua Superior Um e fracassou. O que a história permite observar é que nenhum dos demônios surgidos depois reuniu exatamente as mesmas condições de Michikatsu.
Encontrar outro espadachim daquele nível já seria difícil. Esse indivíduo ainda precisaria aceitar a transformação, sobreviver ao sangue de Muzan, manter sua capacidade técnica depois de se tornar demônio e continuar evoluindo durante um período enorme. Mesmo entre os integrantes mais fortes das Luas Superiores, as trajetórias eram completamente diferentes.
Também havia uma característica que Muzan não podia simplesmente impor: a motivação que guiava Michikatsu. Sua obsessão por superar Yoriichi atravessou sua vida humana e continuou depois da transformação. O desejo de aperfeiçoar a própria espada não nasceu de Muzan e não dependia apenas da fome ou da necessidade de aumentar o poder demoníaco.
Foi essa continuidade entre Michikatsu e Kokushibo que tornou a Lua Superior Um tão incomum. Ele não descartou sua vida anterior ao se tornar demônio. Levou consigo aquilo que havia aprendido e passou séculos ampliando esse conhecimento.
Por que nunca surgiu outro Kokushibo?
Kokushibo foi resultado de condições que dificilmente apareceriam juntas novamente. Michikatsu já era um dos grandes espadachins de sua geração, dominava uma Respiração própria, havia despertado a Marca do Caçador e tinha como referência direta Yoriichi Tsugikuni. Depois da transformação, ainda recebeu as vantagens físicas de um demônio e centenas de anos para aperfeiçoar tudo aquilo.
O sangue de Muzan tornou esse conjunto muito mais poderoso, mas não foi responsável por criá-lo desde o início. Outros demônios podiam receber sangue, consumir humanos e desenvolver habilidades extraordinárias. Nenhum deles, porém, começava exatamente do mesmo lugar.
É por isso que Kokushibo ocupou uma posição tão singular entre as Luas Superiores. Muzan conseguia transformar humanos em demônios e acelerar seu crescimento, mas parte essencial da força da Lua Superior Um pertencia a Michikatsu muito antes de os dois se encontrarem.
