Alguns dos antagonistas mais marcantes dos animes não começaram suas histórias querendo destruir o mundo. Muitos foram vítimas de guerras, injustiças ou sistemas que realmente apresentavam problemas. Pain cresceu cercado pela violência das grandes nações ninja. Stain percebeu que o heroísmo havia se transformado em um negócio. Suguru Geto passou anos arriscando a vida para proteger pessoas que sequer conheciam a existência das maldições.
As experiências desses personagens ajudam a compreender suas revoltas, mas também revelam como convicções aparentemente justificáveis podem se transformar em obsessões perigosas e Em Death Note, Light Yagami acredita que pode construir uma sociedade sem criminosos. Madara Uchiha procura acabar definitivamente com as guerras. Já Eren Yeager decide enfrentar o mundo inteiro diante das ameaças contra sua terra natal e cada um segue um caminho diferente, e alguns chegam a reconhecer seus próprios erros. Outros permanecem tão convencidos de que estão certos que passam a considerar qualquer pessoa contrária aos seus planos um obstáculo a ser eliminado, entre críticas sociais, traumas e ambições pessoais, esses dez personagens mostram como uma boa compreensão dos problemas de seu mundo pode terminar em decisões terríveis.
1. Pain — O homem que queria acabar com as guerras provocando ainda mais sofrimento

Em Naruto Shippuden, Nagato conheceu as consequências das guerras muito antes de possuir poder suficiente para enfrentar seus responsáveis, Amegakure era frequentemente utilizada como campo de batalha pelas grandes nações ninja. Enquanto vilas como Konoha disputavam influência e território, a população do País da Chuva sofria com destruição, fome e mortes,os pais de Nagato foram assassinados por ninjas de Konoha durante a Segunda Grande Guerra Ninja. Órfão, ele encontrou Yahiko e Konan, duas crianças que também tentavam sobreviver naquele ambiente.
A chegada de Jiraiya ofereceu aos três uma oportunidade de aprender ninjutsu e buscar um futuro diferente, anos depois, Yahiko liderou a formação da Akatsuki, inicialmente dedicada a alcançar a paz em Amegakure. Entretanto, a organização se tornou alvo de uma conspiração envolvendo Hanzō e Danzō, que terminou com a morte de seu fundador e Nagato perdeu o amigo e abandonou gradualmente a esperança de resolver os conflitos por meio da cooperação, sua conclusão era que as pessoas só compreendiam verdadeiramente o sofrimento quando passavam pela mesma experiência.
O sistema ninja realmente alimentava guerras sucessivas. As grandes vilas protegiam seus próprios interesses e, muitas vezes, deixavam países menores pagando pelas consequências de disputas nas quais tinham pouca influência, a resposta de Pain, entretanto, foi transformar esse sofrimento em uma arma, seu plano envolvia reunir o poder das Bestas com Cauda para criar uma força destrutiva capaz de devastar países inteiros. A ameaça provocaria medo suficiente para interromper temporariamente as guerras.
Nagato sabia que essa paz não duraria para sempre. Quando as novas gerações esquecessem os horrores anteriores e retomassem os conflitos, a utilização da arma provocaria outra tragédia, renovando o temor, o resultado seria uma sucessão de períodos de paz e destruição e a invasão de Konoha demonstrou até onde ele estava disposto a levar essa filosofia. Pain destruiu grande parte da vila e matou inúmeras pessoas para obrigar Naruto e seus habitantes a conhecerem a mesma dor que havia marcado sua infância ,seu confronto com o protagonista ganhou força porque os dois haviam sido alunos de Jiraiya e herdado o mesmo sonho de acabar com as guerras.
Naruto reconheceu o sofrimento de Nagato, mas se recusou a aceitar que novas tragédias fossem a única resposta, o antigo líder da Akatsuki compreendeu as falhas de um mundo dominado pela vingança. Ao tentar combatê-las utilizando o medo, acabou reproduzindo a violência que havia destruído sua própria vida.
2. Meruem — O rei que descobriu o valor dos humanos, mas ainda queria decidir o destino deles

Meruem nasceu para governar as Formigas Quimera de Hunter x Hunter e desde seus primeiros momentos, demonstrou uma superioridade física e intelectual assustadora. Os humanos eram considerados criaturas inferiores, úteis principalmente como alimento ou como instrumentos para fortalecer seu exército, a hierarquia parecia natural para alguém capaz de derrotar quase qualquer adversário sem esforço.
Essa visão começou a mudar quando ele conheceu Komugi ,a jovem não possuía habilidades de combate, força sobre-humana ou qualquer característica que chamasse a atenção de um rei interessado em dominar outras espécies. Era uma garota frágil, com deficiência visual, cuja maior habilidade estava em um jogo de tabuleiro chamado Gungi ,e Meruem acreditava que conseguiria vencê-la rapidamente, fracassou e mesmo utilizando sua enorme inteligência e analisando cuidadosamente cada partida, não conseguiu superar Komugi. A jovem continuava encontrando estratégias que ele não havia previsto.
O rei descobriu que existiam formas de talento que não dependiam de superioridade física, posição social ou capacidade de destruição, sua convivência com a jogadora também despertou sentimentos que nunca havia experimentado, Meruem passou a se preocupar com seu bem-estar e a reconhecer qualidades humanas que anteriormente desprezava e sua visão sobre a humanidade se tornou mais complexa, especialmente depois do confronto com Isaac Netero e durante essa transformação, chegou a considerar a coexistência entre humanos e Formigas Quimera.
O problema estava nas condições que imaginava para essa convivência, ele ainda acreditava possuir autoridade para selecionar as pessoas que mereceriam proteção e determinar como a sociedade deveria funcionar. Sua proposta conservava uma hierarquia na qual ele permaneceria como governante absoluto, seu reconhecimento das desigualdades humanas não eliminava a disposição de controlar a vida dos demais, o desenvolvimento do personagem, contudo, não termina nessa fase e depois dos acontecimentos envolvendo Netero e a Rosa dos Pobres, seus últimos momentos com Komugi revelam uma transformação emocional muito mais profunda.
O rei que antes exigia submissão termina a vida buscando apenas a companhia da pessoa que havia aprendido a amar, Meruem é um caso especial porque sua história não apresenta apenas alguém com uma visão distorcida de justiça. Mostra um antagonista que começa a questionar a própria superioridade e encontra, em uma jovem aparentemente indefesa, algo que sua força jamais conseguiria conquistar.
3. Stain — O assassino que percebeu os problemas da sociedade dos heróis

Em My Hero Academia, salvar pessoas se tornou uma profissão, heróis possuem agências, contratos, posições em rankings e reconhecimento público. Suas atividades movimentam dinheiro e transformam determinados indivíduos em celebridades e ssse sistema permite organizar o combate aos vilões, mas também cria incentivos que nem sempre estão relacionados ao desejo de proteger pessoas, Stain enxergava essa contradição como uma corrupção dos valores do heroísmo e para ele, alguém que escolhesse a profissão apenas por fama, dinheiro ou prestígio não merecia receber o título de herói.
Seu maior exemplo era All Might, que arriscava a própria vida para proteger desconhecidos e inspirava segurança mesmo diante de adversários extremamente perigosos, Stain também reconheceu em Izuku Midoriya características que considerava dignas de um verdadeiro herói e sua crítica encontrou espaço porque a própria série mostra personagens preocupados com reputação, popularidade e competição profissional. Os acontecimentos posteriores envolvendo a sociedade dos heróis aprofundam ainda mais essas contradições.
Entretanto, Stain transformou sua convicção pessoal em uma campanha de assassinatos, o caso de Tensei Iida, o Ingenium original, é especialmente revelador. O herói ficou gravemente ferido e perdeu a capacidade de continuar exercendo sua profissão depois de enfrentar o assassino, Stain também tentou matar Native e Tenya Iida durante o confronto em Hosu, o destino desses personagens não dependia de uma investigação séria sobre suas ações. Bastava que fossem considerados indignos segundo os critérios particulares do vilão.
O fanatismo de Stain produziu outra consequência: sua imagem passou a inspirar criminosos que enxergavam em seus discursos uma justificativa para enfrentar a sociedade, ele não pretendia simplesmente ajudar a Liga dos Vilões, mas suas ações contribuíram para ampliar o interesse por grupos que desejavam destruir a ordem existente, a comercialização do heroísmo era um assunto legítimo dentro daquele universo. Stain perdeu qualquer capacidade de promover mudanças construtivas quando passou a acreditar que poderia decidir quem merecia viver.
4. Zamasu — O deus que condenou os mortais pela violência e se tornou um dos maiores assassinos do universo

Zamasu era um aprendiz de Kaioshin do Universo 10, treinado por Gowasu para assumir responsabilidades divinas ,seu mestre acreditava que os deuses deveriam observar o desenvolvimento das civilizações e respeitar determinados limites de interferência, Zamasu começou a desenvolver um profundo desprezo pelos mortais.
Ao observar povos como os habitantes do planeta Babari, interpretou seus conflitos e comportamentos violentos como provas de que as criaturas inferiores eram incapazes de construir uma existência digna, os mortais realmente provocavam guerras, exploravam outros seres e destruíam aquilo que construíam. O universo de Dragon Ball oferece numerosos exemplos dessas ameaças, incluindo Freeza e outros conquistadores, mas Zamasu não estava interessado em compreender as diferenças entre indivíduos ou civilizações, ele passou a tratar toda a vida mortal como um erro.
Sua obsessão resultou no Plano Zero Mortais, desenvolvido com outra versão de si mesmo após acontecimentos envolvendo diferentes linhas temporais, uma dessas versões roubou o corpo de Goku, assumindo a identidade de Goku Black. A dupla iniciou uma campanha de extermínio no futuro de Trunks e o contraste com seu discurso é evidente, Zamasu condenava a violência, a arrogância e o egoísmo dos mortais, mas assassinava pessoas inocentes enquanto proclamava a própria superioridade moral ele também demonstrava a convicção de que nenhum outro ser possuía autoridade para contestar suas decisões.
Seu projeto de justiça excluía qualquer possibilidade de julgamento externo e como se considerava um deus superior aos mortais, interpretava suas próprias ações como necessariamente corretas, a destruição provocada pelos dois chegou a proporções tão extremas que Zeno acabou apagando a linha temporal futura de Trunks para eliminar a ameaça restante e Zamasu identificou comportamentos destrutivos no universo, mas sua solução consistia em cometer atrocidades ainda maiores, utilizando a condição divina como justificativa ,Gowasu tentou ensiná-lo a observar e compreender a vida. Seu aprendiz preferiu assumir o papel de juiz de toda a existência.
5. Suguru Geto — O feiticeiro que passou a odiar as pessoas que deveria proteger

Suguru Geto não começou sua trajetória como inimigo da humanidade, durante seus anos na Escola Jujutsu de Tóquio, acreditava que os feiticeiros possuíam a responsabilidade de proteger pessoas comuns. Essa convicção fazia parte de sua relação com Satoru Gojo, embora os dois apresentassem personalidades bastante diferentes, a missão envolvendo Riko Amanai abalou profundamente essa visão, Geto e Gojo receberam a tarefa de proteger a jovem, escolhida para participar de um processo relacionado a Tengen. Apesar dos esforços dos dois estudantes, Riko acabou assassinada por Toji Fushiguro.
O comportamento dos integrantes do Culto da Estrela, que celebraram sua morte, marcou Geto, e pouco depois, ele continuou participando de missões cada vez mais desgastantes. A morte de Yu Haibara agravou seu sofrimento e aumentou suas dúvidas sobre o sistema de feiticeiros, Em Jujutsu Kaisen, a energia amaldiçoada liberada principalmente por humanos que não conseguem controlá-la contribui para o surgimento das maldições, os feiticeiros precisam enfrentar essas criaturas continuamente, muitas vezes arriscando suas vidas para proteger pessoas que desconhecem o perigo.
Geto começou a questionar por que deveria continuar se sacrificando em benefício de quem, em determinadas circunstâncias, demonstrava desprezo pelos próprios protetores e em uma conversa com Yuki Tsukumo também apresentou possibilidades para eliminar as maldições de maneira definitiva, incluindo transformar a relação da humanidade com a energia amaldiçoada, Geto acabou escolhendo o caminho mais extremo: construir um mundo habitado apenas por feiticeiros , sua ruptura aconteceu depois que encontrou duas meninas com habilidades especiais sendo maltratadas pelos moradores de uma aldeia. Ele as resgatou, mas também massacrou os habitantes do local.
A partir dali, abandonou a escola e passou a defender a eliminação dos não feiticeiros, o desgaste dos combatentes e a crueldade enfrentada por pessoas como Riko, Nanako e Mimiko eram problemas reais. Entretanto, Geto passou a responsabilizar uma população inteira por experiências que envolviam indivíduos e instituições diferentes , milhões de pessoas que nunca haviam participado dessas injustiças passaram a ser consideradas inimigas e sua tragédia está na transformação de um protetor em alguém disposto a exterminar justamente aqueles que havia jurado defender.
6. Shogo Makishima — O homem que descobriu como uma sociedade organizada podia esconder uma enorme injustiça

O Japão de Psycho-Pass utiliza o Sistema Sibyl para avaliar seus habitantes, a tecnologia analisa estados psicológicos, mede coeficientes de criminalidade e influencia decisões que vão desde oportunidades profissionais até intervenções policiais a população vive em uma sociedade aparentemente organizada, na qual muitas escolhas são orientadas pelas avaliações do sistema.
Shogo Makishima enxergava essa dependência como uma ameaça à liberdade individual, ele acreditava que as pessoas haviam perdido parte da capacidade de pensar e decidir por conta própria, transferindo responsabilidades pessoais a uma estrutura que determinava o comportamento considerado aceitável, sua crítica ganha ainda mais força quando descobrimos que o Sibyl não é uma autoridade imparcial e perfeita, o sistema apresenta limitações e mantém segredos que contradizem a confiança depositada nele.
Makishima possui uma condição conhecida como ausência de sintomas criminais: mesmo cometendo atrocidades, seu coeficiente não aumenta da maneira esperada. Essa característica demonstra como os métodos de avaliação podem falhar diante de indivíduos que representam perigo real, mais tarde, a própria composição do Sibyl revela uma contradição ainda maior, pois utiliza cérebros de pessoas com características semelhantes às dele, o antagonista, porém, não procurava apenas expor essas falhas.
Ele manipulava criminosos, organizava situações violentas e explorava vulnerabilidades tecnológicas para provocar o colapso da ordem social, os acontecimentos envolvendo capacetes que confundiam as medições do sistema demonstraram como a confiança excessiva na tecnologia havia deixado a população despreparada para reagir a crimes que suas ferramentas não conseguiam identificar adequadamente.
Makishima também tentou comprometer a produção de alimentos, explorando a dependência do país de um sistema agrícola altamente concentrado e sua defesa da autonomia humana contrastava com a maneira como tratava os próprios aliados e vítimas: pessoas que poderiam ser manipuladas ou sacrificadas para atingir seus objetivos ele criticava a perda da liberdade individual enquanto retirava dos outros a oportunidade de escolher seus caminhos, a diferença entre Makishima e muitos antagonistas está na natureza de seu conflito. O vilão não precisava conquistar o mundo. Bastava revelar as fragilidades de uma sociedade que havia aprendido a confiar cegamente em seus mecanismos de controle.
7. Garou — O garoto que defendia os monstros e decidiu se transformar no maior deles

Garou desenvolveu sua visão sobre justiça ainda durante a infância, nas brincadeiras com outras crianças, os heróis eram representados como figuras que sempre deveriam vencer, enquanto os monstros existiam apenas para serem derrotados, Garou se identificava com aqueles que recebiam o papel de vilão. Suas experiências com exclusão e intimidação contribuíram para que enxergasse a diferença entre heróis e monstros como uma classificação determinada pelos mais fortes ou populares e anos depois, ele se tornou um caçador de heróis.
Utilizando as técnicas aprendidas com Bang, passou a enfrentar integrantes da Associação de Heróis e demonstrou uma capacidade extraordinária de adaptação durante os combates, sua revolta possuía uma dimensão pessoal, mas também envolvia uma crítica à maneira como a sociedade aceitava determinadas definições de justiça, Garou acreditava que os vencedores recebiam o reconhecimento público enquanto os derrotados eram tratados como monstros, independentemente de suas motivações e seu plano mais ambicioso consistia em se tornar o Mal Absoluto.
Se existisse uma ameaça tão poderosa que ninguém pudesse enfrentar individualmente, toda a humanidade teria um inimigo em comum. Na visão de Garou, o medo poderia substituir rivalidades e obrigar pessoas de diferentes origens a permanecerem unidas , a ideia apresentava uma contradição evidente: para impedir injustiças, ele pretendia espalhar terror pelo planetam Garou também demonstrava atitudes incompatíveis com a imagem de monstro que tentava construir.
Sua relação com Tareo revelou que ainda se preocupava com pessoas vulneráveis, especialmente crianças que sofriam experiências semelhantes às de sua infância e o confronto com Saitama aprofundou essas contradições. Mesmo depois de adquirir poderes extraordinários, Garou continuou incapaz de superar alguém que não precisava de discursos grandiosos para agir como herói, na versão do mangá, os acontecimentos envolvendo seu poder cósmico também demonstram como a busca por força absoluta poderia provocar consequências devastadoras para pessoas que ele desejava proteger, Garou queria eliminar a injustiça representando o maior mal possível. Sua dificuldade era perceber que, ao se tornar a ameaça temida por todos, acabaria colocando inocentes em perigo.
8. Light Yagami — O estudante que começou punindo criminosos e decidiu se tornar um deus

Light Yagami encontrou o Death Note quando ainda era um estudante brilhante, com excelente desempenho acadêmico e perspectivas de seguir uma carreira promissora, o caderno oferecia uma capacidade assustadora: matar qualquer pessoa cujo nome fosse escrito em suas páginas, desde que determinadas condições fossem cumpridas ,depois de testar seu funcionamento, Light passou a utilizá-lo para eliminar criminosos e seu objetivo declarado era construir uma sociedade na qual as pessoas honestas não precisassem viver com medo da violência.
A discussão inicial envolve justiça, segurança e punição. Entretanto, Death Note mostra rapidamente como o poder de matar sem precisar responder às autoridades altera a maneira como o protagonista enxerga a si mesmo, um dos primeiros exemplos acontece durante a transmissão preparada por L, o investigador utiliza Lind L. Tailor, um condenado apresentado publicamente como se fosse o próprio L, para provocar Kira e Light reage imediatamente e escreve o nome do homem no caderno essa armadilha permite localizar a região onde o assassino se encontra e demonstra que ele pode matar à distância.
O comportamento de Light revela algo que já estava presente no início de sua transformação: ele não tolerava ser desafiado, ao longo da investigação, seu conceito de inimigo deixa de incluir apenas criminosos, agentes do FBI, investigadores e pessoas que ameaçam revelar sua identidade passam a ser considerados obstáculos que precisam desaparecer, Raye Penber e Naomi Misora são exemplos da maneira como sua campanha ultrapassou qualquer pretensão de punir exclusivamente responsáveis por crimes, Light desejava construir um mundo mais seguro, mas não aceitava a existência de uma autoridade capaz de julgar suas próprias ações.
Seu projeto também dispensava investigações transparentes, direito de defesa e qualquer mecanismo capaz de corrigir decisões equivocadas e com o tempo, o estudante passa a acreditar que deveria governar o novo mundo como uma espécie de deus e sua inteligência permitiu enganar adversários perigosos, mas não impediu que confundisse a capacidade de aplicar uma punição com o direito de decidir o destino de outras pessoas, a investigação conduzida por L e, posteriormente, Near expõe a fragilidade dessa pretensão e no fim, Kira não era uma entidade superior. Era um homem que havia recebido um instrumento sobrenatural e decidiu que isso lhe dava autoridade para controlar a humanidade.
9. Madara Uchiha — O ninja que tentou acabar com as guerras aprisionando todos em um sonho

Madara nasceu em uma época na qual os clãs ninja lutavam constantemente entre si, durante sua infância, perdeu irmãos e testemunhou a violência de um sistema que utilizava até crianças em confrontos militares, sua amizade com Hashirama Senju surgiu do desejo compartilhado de construir um lugar onde as novas gerações não precisassem enfrentar as mesmas tragédias os dois acabariam participando da criação de Konoha, uma vila que deveria reunir diferentes famílias e oferecer maior segurança aos seus habitantes.
Entretanto, a fundação da Vila da Folha não resolveu todos os conflitos, disputas políticas continuaram existindo, a relação entre Madara e Hashirama se deteriorou e novas guerras surgiriam entre as grandes nações ninja o antigo líder Uchiha passou a acreditar que qualquer paz construída dentro da realidade seria temporária e sua resposta foi o Tsukuyomi Infinito.
Utilizando o poder do Dez-Caudas e a capacidade de projetar o genjutsu sobre a Lua, Madara pretendia colocar a humanidade inteira em uma ilusão, cada pessoa viveria uma realidade aparentemente ideal, construída a partir de seus desejos e experiências, não haveria conflitos capazes de interromper aquela existência imaginária, pois todos permaneceriam presos aos próprios sonhos, para Madara, essa seria a solução definitiva para um mundo incapaz de abandonar as guerras, a proposta, entretanto, exigia retirar de todas as pessoas o direito de viver conscientemente e tomar decisões.
Uma paz mantida pela prisão mental da humanidade não resolveria as causas dos conflitos. Apenas impediria que os indivíduos continuassem vivendo no mundo real a situação se tornou ainda mais grave quando foi revelado que Madara havia sido manipulado por Zetsu Negro e as informações presentes na tábua de pedra dos Uchiha foram alteradas para conduzi-lo ao plano necessário à ressurreição de Kaguya Ōtsutsuki, o Tsukuyomi Infinito também estava relacionado à Árvore Divina, que absorvia o chakra das vítimas presas na ilusão.
Madara acreditava estar libertando a humanidade do sofrimento, sem compreender completamente o papel que desempenhava nos planos de outro ser, o personagem passou grande parte da vida procurando uma solução para as guerras e terminou ajudando a executar um projeto que ameaçava a existência da própria humanidade e seu antigo sonho de proteger as crianças dos conflitos havia se transformado em uma tentativa de retirar de todos a possibilidade de escolher como viver.
10. Eren Yeager — O homem que queria liberdade e acabou destruindo grande parte da humanidade

Eren Yeager começou Attack on Titan acreditando que os Titãs eram os maiores inimigos da humanidade, sua visão mudou quando descobriu a verdade sobre o mundo além das muralhas, a população de Paradis não representava o último grupo de humanos sobreviventes. Existiam outras nações, uma longa história de conflitos envolvendo os Eldianos e governos que consideravam os habitantes da ilha uma ameaça, Marley utilizava o poder dos Titãs em operações militares e mantinha políticas discriminatórias contra os descendentes de Ymir.
Eren descobriu que a destruição das muralhas e as tragédias que marcaram sua infância estavam ligadas a disputas muito maiores do que imaginava e o seu desejo de proteger os amigos e garantir um futuro para Paradis passou a envolver adversários humanos, exércitos e interesses políticos, a ilha realmente enfrentava ameaças externas. Entretanto, as alternativas discutidas pelos personagens exigiam escolhas difíceis, negociações incertas e sacrifícios que poderiam se estender por gerações, mas Eren acabou rejeitando esses caminhos e decidiu utilizar o poder do Titã Fundador para iniciar o Rumbling.
Milhões de Titãs Colossais começaram a avançar sobre os territórios além das muralhas, destruindo cidades e eliminando populações inteiras, a devastação atingiu aproximadamente 80% da humanidade antes que seus antigos companheiros conseguissem interromper o avanço, uma parte de suas motivações estava ligada ao desejo de proteger Paradis e oferecer aos amigos a possibilidade de viver por mais tempo.
Mas o final da obra apresenta motivos que vão além dessa justificativa ,Eren também reconhece seu desejo de destruir o mundo que encontrou além das muralhas, tão diferente daquele que imaginava durante a infância, as memórias do futuro e sua relação com os poderes do Titã Fundador influenciaram profundamente suas decisões, embora não eliminem sua responsabilidade por aquilo que fez, ele desejava liberdade, mas escolheu um caminho que retirou a vida e qualquer possibilidade de escolha de incontáveis pessoas.
Entre as vítimas estavam famílias, crianças e indivíduos que não haviam participado diretamente das perseguições contra os eldianos, os acontecimentos finais também mostram que a destruição provocada pelo Rumbling não eliminou definitivamente os conflitos humanos, a história de Eren é especialmente desconfortável porque acompanhamos seu crescimento desde a infância, conhecemos seus medos, suas perdas e o sofrimento causado pelas ameaças contra sua terra natal. Isso permite compreender parte de suas decisões sem transformar a destruição de outras populações em uma consequência aceitável, o protagonista que passou a vida lutando para escapar de uma prisão acabou impondo uma tragédia gigantesca ao mundo que sonhava conhecer.
Menções honrosas: Obito Uchiha e Doflamingo
Obito Uchiha compartilha parte das convicções de Madara e depois de testemunhar a morte de Rin, abandonou gradualmente sua antiga visão sobre o mundo e passou a acreditar que uma realidade ilusória seria preferível à existência marcada pelo sofrimento, o problema é que, para realizar esse sonho, participou de acontecimentos que provocaram novas guerras, mortes e tragédias. Sua tentativa de fugir da dor também ajudou a espalhá-la.
Donquixote Doflamingo, de One Piece, representa uma situação diferente, durante a Guerra de Marineford, ele expõe como os conceitos de justiça podem ser influenciados por quem detém o poder e consegue impor sua versão dos acontecimentos ,Sua própria trajetória, porém, demonstra que ele utilizava essa compreensão para alimentar ambições pessoais, em Dressrosa, construiu um sistema de dominação baseado em manipulação, medo e exploração e Doflamingo não queria corrigir as injustiças que identificava. Queria ocupar uma posição na qual pudesse se beneficiar delas.
Por que esses antagonistas continuam provocando tantas discussões?
Pain conhecia as consequências das guerras, mas decidiu utilizar o sofrimento como instrumento de controle. Geto passou de protetor a perseguidor das pessoas comuns. Light acreditava que poderia corrigir a criminalidade sem responder por seus próprios assassinatos, Meruem seguiu um caminho diferente: sua convivência com Komugi permitiu que reconhecesse sentimentos e qualidades que anteriormente desprezava. Sua história oferece uma transformação que vários outros personagens jamais conseguiram experimentar.
Madara, Zamasu e Eren chegaram a extremos devastadores porque consideraram seus objetivos mais importantes do que a liberdade e a vida daqueles que seriam atingidos, Stain, Makishima e Garou expuseram contradições existentes nas sociedades em que viviam, mas também mostraram como convicções pessoais podem justificar ações cada vez mais violentas quando não encontram limites.
Esses personagens permanecem interessantes porque suas decisões estão ligadas às experiências que viveram. Seus discursos não surgem isolados dos acontecimentos da história: guerras, perdas, desigualdade, discriminação e ambição ajudam a explicar como cada um desenvolveu suas ideias.
A diferença está no que fazem quando conseguem poder suficiente para colocar essas convicções em prática , e talvez essa seja uma das características mais marcantes desses antagonistas: muitos passaram a vida tentando combater aquilo que odiavam e terminaram reproduzindo, em proporções ainda mais assustadoras, os mesmos problemas que desejavam eliminar.



